Antes do tapa, geralmente vem o grito, a ameaça. Antes do primeiro empurrão, vem a chantagem. Antes do soco, aparecem as tentativas de controlar, vigiar, humilhar e subjugar. A violência contra a mulher raramente começa com marcas visíveis, ou com demonstrações do que muitos veriam como escancaradas.
É assim que, muitas vezes, começa o ciclo da violência. Os casos recentes registrados no Cariri escancaram essa realidade.
A família de Bárbara Filgueira Oliveira, de 28 anos, estranhou o silêncio. Sem conseguir contato com a jovem, acionou a polícia. Quando os agentes entraram na residência, encontraram o pior cenário possível: Bárbara estava morta. Na casa havia vestígios de sangue e indícios de incêndio. A Polícia Civil investiga o caso como feminicídio.
Camila Maria Gomes Rodrigues, de 38 anos, teve a vida interrompida de forma brutal. Após uma discussão, foi perseguida e atropelada intencionalmente com um caminhão pelo homem que, em outro momento, dizia amá-la. Os laudos da Perícia Forense do Ceará mostraram que não houve qualquer tentativa de frear ou evitar a colisão. Camila foi arrastada por cerca de 22 metros.
Quando foi preso, no Piauí, o suspeito afirmou: “Não vi nada”.
A frase, talvez, diga mais sobre a violência contra a mulher do que o próprio acusado imaginava.
O combate à violência contra a mulher deixou de ser tratado como assunto privado. Em agosto deste ano, a Lei Maria da Penha completou 20 anos, um marco importante na proteção dos direitos das mulheres no Brasil. Mas, enquanto a sociedade avança a passos lentos, mulheres continuam perdendo aquilo que têm de mais precioso: a vida.
Durante séculos, a sociedade realmente não viu. Não viu o controle excessivo como violência. Não viu a humilhação. Não viu a dependência econômica forçada. Não viu o medo. Não viu a mulher como sujeito pleno de direitos.
São histórias diferentes, mas atravessadas por elementos comuns: relações de poder, sentimento de posse, controle e a ideia, ainda presente em parte da sociedade, de que a mulher pode ser dominada, corrigida ou punida.
Os dados mostram a dimensão do problema. Entre janeiro e junho de 2026, quase 2.300 ocorrências de violência contra mulheres foram registradas no Cariri, segundo a Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública. A região aparece como a segunda com mais registros no Ceará, atrás apenas de Fortaleza. Junho foi o mês com o maior número de denúncias: 329 casos.
Os números são altos. Mas eles contam apenas uma parte da história. Porque, antes de cada ocorrência registrada, geralmente houve o grito, a ameaça, a humilhação, o controle, o medo.
Essa mentalidade não surgiu agora. Ela tem raízes profundas.
A formação social brasileira foi construída sobre estruturas patriarcais que, durante séculos, colocaram a mulher em posição de subordinação. O direito, a religião, a economia e os costumes ajudaram a consolidar a ideia de que o homem exercia autoridade sobre a vida feminina. Durante muito tempo, a violência praticada dentro de casa foi naturalizada e tratada como ‘’assunto do casal’’.
A legislação brasileira levou décadas para começar a romper esse ciclo.
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu a igualdade entre homens e mulheres e determinou que o Estado criasse mecanismos para combater a violência familiar. Em 2006, a Lei Maria da Penha reconheceu que a violência contra a mulher não se resume à agressão física: ela também pode ser psicológica, moral, sexual e patrimonial.
Em 2015, o feminicídio passou a ser reconhecido pela legislação brasileira. E apenas em 2024, com a aprovação do Pacote Antifeminicídio, o crime ganhou um tipo penal próprio, com penas mais severas.
Há avanços importantes. Mas é impossível ignorar o tempo que eles levaram para acontecer.
Até agosto de 2023, ainda era necessário que o Supremo Tribunal Federal declarasse, por unanimidade, a inconstitucionalidade da chamada “legítima defesa da honra” – argumento utilizado durante décadas para justificar o assassinato de mulheres. Isso aconteceu há apenas três anos.
Talvez essa seja uma das reflexões mais duras que os números impõem: as mudanças existem, mas ainda são recentes diante de uma cultura construída ao longo de séculos.
Punir é necessário. Prender é necessário. Aperfeiçoar as leis também é necessário. Mas nenhuma transformação será suficiente se a sociedade continuar relativizando sinais de violência que antecedem o crime.
Enquanto o debate avança, mulheres continuam morrendo.
E talvez o verdadeiro atraso não esteja apenas nas leis que demoraram a chegar, mas na lentidão com que ainda aprendemos algo que deveria ser inegociável: a vida de uma mulher nunca pode ser tratada como propriedade de alguém.