Manter a memória e o legado de Mãe Bernadete vivos e também buscar justiça inspiram familiares, amigos e instituições em defesa dos direitos humanos três anos após o assassinato brutal da liderança quilombola. 

A ativista foi morta com 25 tiros (a maioria no rosto) quando estava no sofá de casa, na comunidade de Pitanga dos Palmares, na cidade de Simões Filho (BA).
Para marcar a data, uma missa no Santuário do Senhor do Bonfim da Bahia, a Igreja do Bonfim, em Salvador (BA), está marcada para esta segunda-feira (17), às 9h.
“Acredito que, apesar dos desafios cotidianos, que existem em muitas comunidades quilombolas, a gente tem feito um bom trabalho ao preservar o legado dela”, afirma o neto, Wellington Pacífico, de 25 anos de idade, em entrevista à Agência Brasil.
Wellington estava na casa, com mais duas crianças da família, quando a avó foi assassinada. A morte de Bernadete foi a segunda grande perda do rapaz. O pai dele, o também ativista Flávio Pacífico, o Binho, de 36 anos, também foi assassinado no ano de 2017.
“São feridas que não foram reparadas. Para a nossa comunidade, é uma dor perder minha avó, perder meu pai e ainda por cima viver, conviver com a impunidade de não haver justiça.”
Ele recorda que a avó buscava justiça por Binho. “Apesar dessa injustiça, a gente se esforça para motivar as boas memórias, semear novas expectativas e ressignificar tudo o que aconteceu”.
Faz parte dessa ressignificação transformar o luto em luta. “Entendo que eu devo me qualificar cada dia mais para que eu possa ajudar de alguma forma as pessoas.”
Wellington, que está no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), resolveu ingressar no curso de direito em uma faculdade da Bahia, para lutar por justiça por sua família e pelas comunidades quilombolas no Estado.
“Tive minha família destruída, atravessada por tragédias, tendo que se reconstruir a cada dia. Essas vivências me fizeram ter outro olhar para o direito”, afirmou.
Ele conta que os acusados pela morte da avó estão presos. Dois dos acusados tiveram julgamento em abril. Arielson da Conceição dos Santos (o executor) foi condenado a mais de 40 anos de prisão e Marílio dos Santos, um dos envolvidos no planejamento do crime, recebeu pena de 29 anos e 9 meses.
Outros três acusados aguardam julgamento, que deve ocorrer em outubro, segundo estimativa da família. O processo tramita em segredo, e o Tribunal de Justiça da Bahia não confirmou a data do julgamento.
“A gente espera que a justiça seja feita. Toda vez que falarmos da Mãe Bernadete, a gente tem que falar do Binho do Quilombo. Suspeitos foram presos e depois soltos. Eu diria até que há risco de vitimar outras lideranças.”
Wellington afirma que é necessário manter esses crimes sob visibilidade no País. “A gente aprende muito quando os holofotes se apagam.”
Ainda na intenção de manter o legado de Mãe Bernadete, a família deve promover um novo festival de cultura e arte quilombola. À frente da iniciativa, está o filho dela, Jurandir Pacífico. Ele diz que o legado da mãe e do irmão o inspira a trabalhar em projetos que mobilizem a própria comunidade e também outros quilombos.
Ele acrescenta que busca parcerias para os projetos a fim de que nada seja interrompido, como os festivais, os cursos de artesanato e a cozinha solidária. “Estamos buscando políticas públicas para as comunidades quilombolas”.
A ativista Selma Dealdina, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) conhecia de perto o trabalho de Mãe Bernadete. Ela estará nesta segunda na missa em homenagem à amiga. Emocionada, ela contextualiza que a brutalidade da morte de Bernadete deixa um recado dolorido.
“A gente espera mais do Estado Brasileiro na proteção dos defensores e defensoras de direitos humanos, das lideranças quilombolas que fazem a luta pela terra, que fazem a luta para salvaguardar os territórios.”
A Conaq emitiu nota em que exige a responsabilização dos acusados da morte de Bernadete e medidas efetivas para garantir a segurança das lideranças quilombolas.
“Lembramos a mulher que cuidava, liderava, ensinava, acolhia e enfrentava as injustiças. Lembramos a ialorixá que carregava a força de sua ancestralidade”, informa o documento.
A entidade acrescenta que Bernadete fez de sua existência uma “trincheira” em defesa de seu povo e que, três anos depois do assassinato, a voz da ativista continua ecoando nos quilombos.
“Sua memória está nas mulheres quilombolas que seguem ocupando espaços de decisão, está nas comunidades que resistem às ameaças e lutam pelo direito de existir com dignidade.”
A historiadora baiana Valdecir Nascimento, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, destaca que as mulheres negras, defensoras de direitos humanos, são vítimas do racismo, da violência doméstica e de outras violações. “As desigualdades no Brasil têm cor e gênero. Esse conjunto de violências nos deixa acuada na luta por garantia de direitos.”
O racismo, articulado com o sexismo, mantém as mulheres negras em uma condição de vulnerabilidade. Levantamento da Conaq mostrou que o assassinato de Bernadete não foi isolado. Pelo menos 22 mulheres foram mortas entre 2016 e 2024 e outras 33 foram ameaçadas apenas entre os anos de 2021 e 2023.
Somente 12,6% dos mais de 1 milhão de brasileiros quilombolas estão em territórios demarcados. “Precisamos estar seguros no nosso território”, diz Selma Dealdina.
Diante da situação, a Conaq apresentou um plano emergencial de proteção de mulheres quilombolas a fim de ser apresentado ao poder público. “Para que as pessoas não sintam medo de fazer a luta pela terra”, defendeu a ativista da Conaq.