Poder
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Aos 68 anos, Ciro Ferreira Gomes volta a disputar o Governo do Ceará mais de três décadas após deixar o cargo, em 1994, para assumir o Ministério da Fazenda do governo Itamar Franco — quando se tornou um dos articuladores do Plano Real. Filho de um defensor público e de uma professora, nascido em Pindamonhangaba (SP) e criado em Sobral (CE) desde os quatro anos de idade, Ciro acumula uma trajetória política de mais de 40 anos, com passagens por sete legendas diferentes e quatro candidaturas à Presidência da República. A oficialização de sua candidatura pela Federação PSDB-Cidadania consolida uma aliança de oposição ao governo de Elmano de Freitas que reúne siglas historicamente adversárias, incluindo o PL do entorno bolsonarista.
Formado em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em 1979, Ciro atuou como professor de Direito Tributário e Contabilidade na Universidade de Fortaleza (Unifor) antes de ingressar na carreira política. Estagiou também no escritório do então deputado federal Tasso Jereissati, figura central na configuração política que moldaria sua trajetória.
Sua carreira eletiva começou em 1983, aos 25 anos, quando se elegeu deputado estadual pelo PDS — primeiro de sete partidos pelos quais passaria. Reeleito em 1986 pelo PMDB, foi convidado por Tasso a exercer a liderança do governo estadual na Assembleia Legislativa. Em seguida migrou para o recém-criado PSDB, partido pelo qual foi eleito prefeito de Fortaleza (1989) e, no ano seguinte, governador do Ceará com 54,32% dos votos válidos.
Aos 33 anos, tornou-se o segundo governador mais jovem do país. Foi o primeiro governador eleito pelo PSDB na história. Em sua gestão (1991–1994), Ciro ampliou a representação do PIB cearense de 1,65% para 1,72% do PIB nacional, incentivou a criação de micro e pequenas empresas, combateu a sonegação fiscal e terceirizou serviços públicos — medida que gerou atrito com sindicatos. Saiu do governo com 74% de aprovação, recusando a pensão vitalícia de ex-governador.
A convite do presidente Itamar Franco, assumiu o Ministério da Fazenda em 1994, participando da equipe que elaborou o Plano Real. Foi ministro da Integração Nacional no governo Lula (2003–2006) e exerceu mandato como deputado federal pelo PSB entre 2007 e 2011. Retornou ao Ceará em 2013, assumindo a Secretaria Estadual de Saúde durante o governo do irmão, Cid Gomes.
Ciro disputou a Presidência da República em quatro oportunidades: em 1998 e 2002, concorreu pelo PPS, quando obteve 10,97% e 11,97% dos votos válidos, respectivamente. Em 2018 e 2022, Gomes concorreu pelo PDT, quando marcou 12,47% no pleito que elegeu Jair Bolsonaro e 3,04% na eleição que levou Lula ao terceiro mandato. O retorno ao PSDB foi formalizado em outubro de 2025, retomando o partido pelo qual governou o estado. Em abril de 2026, recusou o convite da cúpula nacional tucana para disputar a Presidência, optando pela candidatura estadual.
A candidatura de Ciro Gomes ao Governo do Ceará em 2026 se sustenta sobre uma coligação heterogênea que atravessa o espectro ideológico. A Federação PSDB-Cidadania é a base da chapa, com o ex-senador Tasso Jereissati como articulador principal e referência histórica do tucanismo cearense.
O vice-governador é Roberto Cláudio, ex-prefeito de Fortaleza pela Federação União Progressista (federacão formada por União Brasil e Progressistas). Para o Senado, a chapa lança dois nomes: Capitão Wagner (União Brasil) e Alcides Fernandes (PL), indicado pela ala do deputado federal André Fernandes e do senador Flávio Bolsonaro.
O apoio do PL tornou-se o elemento mais controverso da aliança. A sigla vive um racha interno no estado: de um lado, o diretório estadual comandado por André Fernandes, com apoio de Flávio Bolsonaro, endossa Ciro; do outro, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro apoiou o senador Eduardo Girão (Novo), que abriu mão da candidatura ao Palácio da Abolição para ser candidato à vice na chapa de Romeu Zema (Novo). Com isso, a direção do Novo no Ceará indicou o advogado Pedro Brito para concorrer ao Governo do Estado.
A Federação União Progressista também enfrenta litígio judicial. Os partidos União Brasil e Progressistas, em convenções separadas, decidiram apoiar o candidato Elmano de Freitas (PT), entrando na Justiça para anular a convenção da federação que declarou apoio a Ciro. Na justiça, o apoio ao peessedebista foi mantido.
O cenário também renova a rixa familiar entre os irmãos Ciro e Cid Gomes. Cid concorrerá ao Senado apoiado por Lula e pelo governo Elmano, enquanto Ciro lidera a chapa de oposição com aliados bolsonaristas — configuração inédita para um político que foi ministro de dois governos do PT e se candidatou à Presidência quatro vezes por legendas de centro-esquerda.